quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O sujeito invisível

Parece até contraditório, mas constatar que justamente uma pessoa que não pode enxergar tornou-se invisível em um cenário visível é no mínimo, MUITO triste.
Ao passar pelo outro lado da rua percebi que, mais do que uma visão, estava diante de uma realidade indescritivelmente cruel!
Uma pessoa com deficiência visual parada frente a um semáforo (sem opção de acessibilidade) no centro da cidade, num cruzamento de duas de suas maiores avenidas, mais ou menos às duas horas da tarde, em um sol de mais ou menos cinquenta graus celsius, esperava pela oportunidade de atravessar a rua. Ainda que EU (totalmente alheia á situação e impossibilitada de acessar o local) compreendesse a sua capacidade intuitiva e sensitiva de executar tal tarefa, o que me deixou estarrecida foram as atitudes das pessoas que passavam por lá.
Ao estender seu braço junto à sua bengala, dizendo algumas palavras (que eu não podia ouvir mas quem estava perto podia), a pessoa indicava que precisa de um auxílio mínimo para compreender se o sinal estava aberto e se poderia atravessá-lo. E esse era o único auxílio de que precisava. Mas, ao seu lado passaram uma, duas, três, quatro, cinco pessoas que simplesmente não a enxergavam, ou pior, fingiam que não enxergavam... Uma delas, após caminhar alguns metros, até olhou para trás, como se tivesse pena, como se não pudesse fazer nada, mas após alguns segundos continuou seu trajeto como se nada tivesse acontecido...
E a vida seguiu. E quem pode saber quantos minutos a mais essa pessoa ficou esperando por uma oportunidade para atravessar a rua. E quem sabe se alguém enxergou ou sentiu a sua presença. E quem sabe sobre a visão que essa pessoa tem sobre as outras que passaram e vão passar por ela...
Quem é realmente o sujeito invisível?
E eu reflito sobre as coisas que posso fazer pra mudar isso, e chego a conclusão que ainda precisamos evoluir muito para as verdadeiras "cegueiras" sejam curadas.