Não é novidade pra ninguém:
eu sou da Unesp. Com ou sem ranking universitário nacional, esta é, para mim, a melhor instituição de ensino superior do país. Aqui conheci os professores mais inteligentes e éticos com os quais pude e ainda posso compartilhar e construir conhecimentos, além de ter a oportunidade de trabalhar diretamente com causas tão nobres quanto científicas.
Por intermédio da Pró-Reitoria de Graduação todos os anos são realizados encontros de projetos dos cursos de licenciatura, a saber: Núcleo de Ensino e Programa Institucional de Iniciação à Docência, os quais congregam a oportunidade ímpar de formação em serviço dos estudantes de licenciatura, por meio do trabalho direto com professores da rede pública de ensino. No encontro, além dos estudantes da Unesp, participam também os professores supervisores e colaboradores, ou seja, os que estão diretamente ligados à parceria universidade-escola. Com base em debates e apresentações dos trabalhos de pesquisa, todos os envolvidos tornam-se "um só" no compartilhamento de ideias, definição de novas ações e avaliação dos programas e entre os dias 3 e 5 deste mês houve o encontro deste ano...
Tudo poderia terminar bem até que chegou o momento da plenária, onde os representantes de cada um dos grupos envolvidos deveria apresentar as considerações dos grupos de trabalho. Representando o grupo dos professores colaboradores, eis que surgiu uma figura cômica, para não dizer trágica que, não sei se me deixou com tristeza, com medo, com angústia, ou com todos esses e outros sentimentos misturados. Seu discurso inflamado mexeu bastante comigo e outros da plateia, com relação a algumas questões tão vitais como o nosso respirar (ou pelo menos o respirar de qualquer um que se proponha educador). Pois bem, primeiro ele mencionou "a tal da inclusão social" como alusão à inclusão escolar que vivenciamos hoje com relação à entrada das pessoas com deficiência na escola. De acordo com suas palavras, exatamente como foram proferidas: "nós professores somos obrigados a lidar com alunos com deficiência física, visual, com mongolóides, e não estamos preparados pra isso!" Mongolóides meu senhor?! Aquele que se diz despreparado trata de chamar os estudantes com Síndrome de Down de mongolóides, terminologia ABOLIDA do vocabulário educacional há séculos, entre outras afirmativas grosseiras, pejorativas, idiotas e extremamente equivocadas. Tentamos falar com a organização do evento que nos deu um querido e singelo: Não. "Querida, você não pode interferir no discurso do grupo, esse momento é só para explanação, não abriremos para debate"! Mesmo assim tentamos. Elaboramos um protesto escrito, que foi entregue à mesa debatedora, e sabe-se Deus o que foi feito dele.
Bem... O que vocês tem haver com isso?
Não sei, talvez nada.
Mas, eu precisava externar toda a minha INDIGNAÇÃO e repúdio por uma pessoa tão desinformada, retrógrada e preconceituosa que, por pior que pareça, é representativa de uma classe da qual faço parte. Assim como esse professor de Física (nada contra os físicos, conheço alguns muito humanos e maravilhosos) há muitos outros de todas as áreas nas nossas escolas públicas, reproduzindo esses discursos, chamando as crianças de mongolóides, e atravancando o processo de evolução social e cultural brasileiro. Não me assustaria se ele dissesse: ainda por cima temos que dar aulas pros pobres, negros, feios, gordos, etc porque, por trás desse discurso preconceituoso, muitos outros preconceitos estão enraizados.
Por isso, caros amigos, há que se debater e agir sobre a escola, sobre a formação dos professores, e antes disso, sobre a formação do caráter humano. A "tal da inclusão social" não é questão de escolha, é questão de humanidade. A nossa sociedade está evoluindo, e esta evolução implica de uma participação EFETIVA de todos os cidadãos, sejam eles ou não "defeituosos". Afinal de contas, a inclusão social ou escolar, que seja, não é só para as minorias. Ela desperta valores para que possamos olhar para o outro, tendo ele seus defeitos e qualidades. Pior do que ser "mongolóide" é ser um analfabeto que se diz professor de Física, concordam? E seus alunos não tem como escolher se podem ou não ter aulas com você, eles não estão preparados, mas não tem direito de escolha.
O fato é que estou e vou continuar por um bom tempo indignada.
Como diria Goethe:
Cada indivíduo vê o mundo - e o que este tem de acabado, de regular, de complexo e de perfeito - como se se tratasse apenas de um elemento da natureza a partir do qual tivesse que constituir um outro mundo, particular, adaptado às suas necessidades. Os homens mais capazes tomam-no sem hesitações e procuram na medida do possível comportar-se de acordo com ele. Há outros que não se conseguem decidir e que ficam parados a olhar para ele. E há ainda os que chegam ao ponto de duvidar da existência do mundo.
De fato verificamos quase todos os dias que aquilo que um indivíduo consegue pensar com toda a facilidade pode ser impossível de pensar para um outro. Se alguém ainda pensa esse tipo de atrocidade, é porque ainda precisamos crescer muito, como seres humanos. De outro modo a humanidade será tomada pela desumanidade e pela intolerância.