O direito à diversidade, à liberdade de escolha. E a esperança de que nossa sociedade um dia reconheça as diferenças não somente a partir dos rótulos. Ter ou não deficiência é APENAS, e tão somente, uma diferença.
Aquilo que nos aproxima ou nos divide é a nossa essência. Para esta, NÃO é possível impor rótulos.
Leiam o brilhante texto de Anahi Guedes de Mello!
Aquilo que nos aproxima ou nos divide é a nossa essência. Para esta, NÃO é possível impor rótulos.
Leiam o brilhante texto de Anahi Guedes de Mello!
Sou anti anti-implante coclear na exata medida em que sou anti anti-libras, pois acredito que todos temos o direito de fazer escolhas. Nós escolhemos algo ou alguma coisa baseando-nos naquilo que sentimos ser o melhor para nós mesmos, e não o que os outros acham ou decidem o que é melhor para nós, salvo nos casos em que somos pequenos e, portanto, ainda não temos o poder de fazer determinadas escolhas. Enfim, as escolhas também implicam em desafios, pois que elas também têm limites.
Adoro especialmente quando Robert Martin nos afirma "cuidado para que a pessoa não se torne o rótulo. Digo que rótulos são para potes de geléia. O melhor rótulo para mim é o meu nome. Eu sou Robert Martin e sou neozelandês. Sou uma pessoa primeiro e minha deficiência é apenas uma parte da minha vida. Minha deficiência não me possui." Estas palavras me cairam como uma luva, pois eu sempre adotei esta postura em relação à minha surdez, razão pela qual nunca me interessei verdadeiramente por nenhum movimento pró "cultura surda". É verdade que já estive perto de entrar nessa onda (lembro-me especialmente da passeata pró "cultura surda" de 1999, em Porto Alegre, em que me aderi "sem mais nem menos", ao lado de pessoas surdas usuárias de libras vindas de toda parte do país), mas isso se deu numa época em que as idéias e ideais que nortearam/norteiam o conceito de "cultura surda" ainda não me eram claros, eu viria a ter os primeiros contatos com as teorias dos Estudos Surdos alguns meses depois desse evento. E a conclusão a que cheguei é que Orgulho Surdo não é comigo. Sou uma pessoa primeiro e a surdez não me possui.
Pois bem, dito tudo isso acima, vou ao que me interessa: estive navegando no youtube, a fim de procurar vídeos sobre a temática da deficiência para meus trabalhos, e de cara me deparei com este lamentável vídeo, campanha anti-implante coclear. Seria trágico se não fosse cômico, a começar pelas mais absurdas desinformações relativas às "restrições impostas" pelo implante coclear. Está aqui a prova mais cabal do grau de infantilidade de uma parcela da comunidade surda, contrária às tecnologias que possam trazer melhor qualidade de vida às pessoas com surdez profunda:
http://www.youtube.com/watch? v=beKYEPfxhTY&feature=related
Um desses sujeitos fazendo uso de teatro barato para ridicularizar os usuários de implante coclear com demonstrações dos choques elétricos que levamos (esta foi boa), da "restrição" do implantado ao mergulho, totalmente ridícula (dentre outros exemplos dados, igualmente ridículos), dando a entender a (im)possibilidade do surdo implantado em mergulhar e culpar (os pais, os médicos ?!) por não poder suportar a pressão debaixo d'água e com isso danificar o implante coclear ??
A princípio eu nem ligaria, mas o problema é que a ignorância deles afeta a imagem de qualquer pessoa com deficiência auditiva. As pessoas com deficiência auditiva não são um grupo homogêneo. Qual surdo oralizado nunca teve que educadamente pedir para algum bom samaritano falar, em vez de ficar-lhe fazendo mímicas ou mesmo libras? Não é este o tipo de vida que nós, usuários de implante coclear, levamos, como querem fazer crer essa propaganda anti-implante. Se o implante coclear é tão ruim assim, ou como consideram os mais extremistas deles, um crime contra a pessoa surda, e se essa premissa é verdadeira, então pela lógica se uma pessoa tiver duas pontes dentárias já não passa pela porta de um banco; assim, ela não pode ir ao dentista senão virará um robô, visto que uma dentadura postiça é sempre uma prótese. Tal qual um marca-passo e um implante coclear. Não se trata de dizer o que é bom ou mau pra pessoa surda. Trata-se, repito, do grau de infantilidade da mente humana, na incapacidade de se colocar no lugar do outro e sentir o que o outro possa estar se sentindo. Enfim, essa gente fica citando os mesmos autores para comprovar que estão certos e depois dizem que não podemos discutir o assunto porque não os lemos. Eu já usei o argumento de que, se as premissas são falsas, a tese é igualmente falsa, sem precisar lê-la inteira. Por exemplo, não preciso ler um mundo de livros nazistas para me convencer de que o nazismo está errado. Basta conhecer suas premissas (se uma coisa tem cheiro de merda, cor de merda e formato de merda, não precisamos provar para se certificar se tem gosto de merda). Agora, logicamente, aos olhos dos nazistas, o nazismo é científico. Mas aos nossos olhos, não precisamos estudar o nazismo para sabermos que essa teoria está errada.
A cultura tem como moto perpetum os aprendizados, calcados na experiência, que é acumulativa. Assim, se uma cultura é, por definição, mutável, para eles não pode bastar porque, se bastasse, estática haveria de ser. Sendo estática, cultura já não seria. Neste sentido, na medida em que a tecnologia caminha para suprir as necessidades humanas e elas são ditadas em grande parte pela cultura, ela há de ser influenciada em igual monta pela tecnologia. Quando os livros passaram a ser impressos, a necessidade de ler aumentou, pois ficou mais barato imprimir do que relatar oralmente. Quando a tecnologia permitiu, o homem se fez aos céus, criando uma demanda constante por viajar. A rejeição da tecnologia há de ser, portanto, uma quebra do enlace cultural mutável que caracteriza o ser humano. Podemos concluir que o uso do implante coclear cria uma variante na "cultura surda". O implantado não será jamais um ouvinte mas será capaz de emular a audição, da mesma forma que um ser humano, ao entrar num avião, não se transforma em pássaro. Em outras palavras, um implantado não deixa de ser surdo, da mesma forma que um portador de marca-passo não deixa de ser cardíaco. A meu ver, o implante coclear transforma um surdo sem acesso ao som num surdo com acesso ao som, da mesma maneira que um marca-passo transforma um cardíaco com arritmia num cardíaco sem arritmia.
Por que então enxergar os surdos implantados como traidores da cultura surda ? Por que fazer tamanha campanha contra o pobre aparelho ? Vocês, como Surdos, ao pretenderem que a surdez não se extinga, ao fomentarem que se perpetue, deveriam estar mais preparados para entender o mundo que lhes cerca. Deveriam estar mais alerta para o entendimento da diversidade passar obrigatoriamente por despirem-se das atitudes arrogantes. Aliás, não seria psicologicamente muito mais equilibrado mostrarmos os riscos e benefícios e deixarmos que a pessoa se decida por si mesma ? No caso dos pais decidirem por seus filhos surdos, a conseqüência não poderá ser tão funesta assim, pois bastaria, caso o indivíduo optasse pela surdez sem sons, desligar o aparelho.
Sinceramente,
Adoro especialmente quando Robert Martin nos afirma "cuidado para que a pessoa não se torne o rótulo. Digo que rótulos são para potes de geléia. O melhor rótulo para mim é o meu nome. Eu sou Robert Martin e sou neozelandês. Sou uma pessoa primeiro e minha deficiência é apenas uma parte da minha vida. Minha deficiência não me possui." Estas palavras me cairam como uma luva, pois eu sempre adotei esta postura em relação à minha surdez, razão pela qual nunca me interessei verdadeiramente por nenhum movimento pró "cultura surda". É verdade que já estive perto de entrar nessa onda (lembro-me especialmente da passeata pró "cultura surda" de 1999, em Porto Alegre, em que me aderi "sem mais nem menos", ao lado de pessoas surdas usuárias de libras vindas de toda parte do país), mas isso se deu numa época em que as idéias e ideais que nortearam/norteiam o conceito de "cultura surda" ainda não me eram claros, eu viria a ter os primeiros contatos com as teorias dos Estudos Surdos alguns meses depois desse evento. E a conclusão a que cheguei é que Orgulho Surdo não é comigo. Sou uma pessoa primeiro e a surdez não me possui.
Pois bem, dito tudo isso acima, vou ao que me interessa: estive navegando no youtube, a fim de procurar vídeos sobre a temática da deficiência para meus trabalhos, e de cara me deparei com este lamentável vídeo, campanha anti-implante coclear. Seria trágico se não fosse cômico, a começar pelas mais absurdas desinformações relativas às "restrições impostas" pelo implante coclear. Está aqui a prova mais cabal do grau de infantilidade de uma parcela da comunidade surda, contrária às tecnologias que possam trazer melhor qualidade de vida às pessoas com surdez profunda:
http://www.youtube.com/watch?
Um desses sujeitos fazendo uso de teatro barato para ridicularizar os usuários de implante coclear com demonstrações dos choques elétricos que levamos (esta foi boa), da "restrição" do implantado ao mergulho, totalmente ridícula (dentre outros exemplos dados, igualmente ridículos), dando a entender a (im)possibilidade do surdo implantado em mergulhar e culpar (os pais, os médicos ?!) por não poder suportar a pressão debaixo d'água e com isso danificar o implante coclear ??
A princípio eu nem ligaria, mas o problema é que a ignorância deles afeta a imagem de qualquer pessoa com deficiência auditiva. As pessoas com deficiência auditiva não são um grupo homogêneo. Qual surdo oralizado nunca teve que educadamente pedir para algum bom samaritano falar, em vez de ficar-lhe fazendo mímicas ou mesmo libras? Não é este o tipo de vida que nós, usuários de implante coclear, levamos, como querem fazer crer essa propaganda anti-implante. Se o implante coclear é tão ruim assim, ou como consideram os mais extremistas deles, um crime contra a pessoa surda, e se essa premissa é verdadeira, então pela lógica se uma pessoa tiver duas pontes dentárias já não passa pela porta de um banco; assim, ela não pode ir ao dentista senão virará um robô, visto que uma dentadura postiça é sempre uma prótese. Tal qual um marca-passo e um implante coclear. Não se trata de dizer o que é bom ou mau pra pessoa surda. Trata-se, repito, do grau de infantilidade da mente humana, na incapacidade de se colocar no lugar do outro e sentir o que o outro possa estar se sentindo. Enfim, essa gente fica citando os mesmos autores para comprovar que estão certos e depois dizem que não podemos discutir o assunto porque não os lemos. Eu já usei o argumento de que, se as premissas são falsas, a tese é igualmente falsa, sem precisar lê-la inteira. Por exemplo, não preciso ler um mundo de livros nazistas para me convencer de que o nazismo está errado. Basta conhecer suas premissas (se uma coisa tem cheiro de merda, cor de merda e formato de merda, não precisamos provar para se certificar se tem gosto de merda). Agora, logicamente, aos olhos dos nazistas, o nazismo é científico. Mas aos nossos olhos, não precisamos estudar o nazismo para sabermos que essa teoria está errada.
A cultura tem como moto perpetum os aprendizados, calcados na experiência, que é acumulativa. Assim, se uma cultura é, por definição, mutável, para eles não pode bastar porque, se bastasse, estática haveria de ser. Sendo estática, cultura já não seria. Neste sentido, na medida em que a tecnologia caminha para suprir as necessidades humanas e elas são ditadas em grande parte pela cultura, ela há de ser influenciada em igual monta pela tecnologia. Quando os livros passaram a ser impressos, a necessidade de ler aumentou, pois ficou mais barato imprimir do que relatar oralmente. Quando a tecnologia permitiu, o homem se fez aos céus, criando uma demanda constante por viajar. A rejeição da tecnologia há de ser, portanto, uma quebra do enlace cultural mutável que caracteriza o ser humano. Podemos concluir que o uso do implante coclear cria uma variante na "cultura surda". O implantado não será jamais um ouvinte mas será capaz de emular a audição, da mesma forma que um ser humano, ao entrar num avião, não se transforma em pássaro. Em outras palavras, um implantado não deixa de ser surdo, da mesma forma que um portador de marca-passo não deixa de ser cardíaco. A meu ver, o implante coclear transforma um surdo sem acesso ao som num surdo com acesso ao som, da mesma maneira que um marca-passo transforma um cardíaco com arritmia num cardíaco sem arritmia.
Por que então enxergar os surdos implantados como traidores da cultura surda ? Por que fazer tamanha campanha contra o pobre aparelho ? Vocês, como Surdos, ao pretenderem que a surdez não se extinga, ao fomentarem que se perpetue, deveriam estar mais preparados para entender o mundo que lhes cerca. Deveriam estar mais alerta para o entendimento da diversidade passar obrigatoriamente por despirem-se das atitudes arrogantes. Aliás, não seria psicologicamente muito mais equilibrado mostrarmos os riscos e benefícios e deixarmos que a pessoa se decida por si mesma ? No caso dos pais decidirem por seus filhos surdos, a conseqüência não poderá ser tão funesta assim, pois bastaria, caso o indivíduo optasse pela surdez sem sons, desligar o aparelho.
Sinceramente,
Anahi GM
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social - PPGAS
Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades - NIGS
http://www.nigs.ufsc.br
ANT - CFH - UFSC
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social - PPGAS
Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades - NIGS
http://www.nigs.ufsc.br
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