quarta-feira, 27 de julho de 2011

Rubem Alves: Sobre ciência e sapiência

Sem palavras, brilhante...

Muitas pessoas não gostam do que escrevo. Dizem que o que eu faço não é ciência; é literatura. É verdade. Faz tempo que me mudei da caixa de ferramentas para a caixa dos brinquedos. O que me aborrece é que esses que não gostam do que escrevo pensam que somente a ciência tem dignidade acadêmica. Houve mesmo o caso de uma candidata ao mestrado que teve seu projeto recusado por me citar demais e por propor um assunto que não era científico. Psicóloga e pedagoga ela sabia por experiência própria do poder do olhar. Há tantos olhares diferentes! Há o olhar de desprezo, de admiração, de ternura, de ódio, de vergonha, de alegria... A mãe encosta o filhinho na parede e, a um metro de distância, lhe estende os braços e diz sorrindo: “Vem”. Encorajada pelo olhar a criança, que ainda não sabe andar, dá seus primeiros passos. Há olhares que dão coragem. E há olhares que destroem. Aquele olhar terrível da professora que olha para a criança de um certo jeito, sem nada dizer. Mas a criança entende o que o seu olhar está dizendo: “Como você é burra”... Há olhares que emburrecem.

O olhar é real. É real porque produz efeitos reais. O olho é também real. Sobre ele se pode ter conhecimento científico. Há uma ciência dos olhos. Há uma especialidade médica que se dedica a eles: a oftalmologia. Mas, por mais que procuremos nos tratados de oftalmologia referências ao olhar, não encontraremos nada. O olhar não é objeto de conhecimento científico. Nem tudo o que é real pode ser pescado com as redes metodológicas da ciência. Há objetos que escapam pelos buracos de suas malhas. Será possível fazer uma ciência dos olhares? Tratá-los estatisticamente? Não tem jeito. Aí a proposta de uma tese sobre o olhar foi rejeitada sob a justa alegação de que não era científica. E não era mesmo. Mas o fato é que os olhares são reais! O estudo dos olhos é tarefa da ciência. E por isso eu sou agradecido. Nesse momento estou usando óculos para escrever. Sem eles eu só veria borrões. Mas eu me dedico ao olhar, para que meus olhos sejam sábios. O olhar é uma musica que os olhos tocam. Coisa de poeta... São os poetas que falam sobre os olhares. ( Eu escrevi “ são os poetas que sabem sobre os olhares” – mas logo corrigi. Todo mundo sabe sobre os olhares. Todo mundo observa atentamente os olhares porque são eles, e não os globos oculares, que sinalizam a vida e especialmente o amor... Mas só os poetas sabem falar sobre eles). Escrevo para mudar olhares. Isso não é ciência. É arte. Há olhos perfeitos que são armas mortíferas. Jesus se referiu a esses olhos e sugeriu que deveriam ser arrancados. Os olhos, eles mesmos, são estúpidos. Eles não têm o poder para discriminar as coisas dignas de serem vistas das coisas não dignas de serem vistas. Para eles tanto faz ver um programa idiota de televisão quando uma tela de Vermeer. A capacidade de discriminar não pertence aos olhos. Pertence ao olhar. Mas isso exige uma luz interior.

Se os olhos não serviram como metáforas, falarei sobre pianos. Mais precisamente, sobre os pianos Steinway, os mais perfeitos, que estão nas grandes salas de concerto do mundo. Os pianos Steinway são produzidos de forma absolutamente rigorosa e científica. Tudo neles tem de ter a medida exata. Todos têm de ser absolutamente iguais, para que o pianista não estranhe. Mas um piano, em si mesmo, é estúpido. Falta-lhes o poder de discriminação. Os pianos obedecem tanto a um toque de macaco, de um louco ou do Nelson Freire. Os pianos não são fins em si mesmos. São ferramentas. São construídos para tornar possível a beleza da música. Mas a beleza não é um objeto de conhecimento científico. Ninguém pode ser convencido a gostar de Bach por meio de raciocínios científicos. Não me consta que nenhum dos especialistas em construção de pianos da fábrica Steinway jamais tenha dado um concerto. Ciência eles têm. Mas falta-lhes a arte. Para que o piano produza beleza há os pianistas. Mas os pianistas nada sabem sobre ciência da construção dos pianos. O que eles sabem é tocar piano, coisa que não é científica... Os fabricantes de piano moram na caixa de ferramentas. Os pianistas moram na caixa de brinquedos.

A diferença está entre “ciência” e “sapiência”. Os teólogos medievais diziam que a ciência era uma serva da teologia. Parodiando eu digo que a ciência é uma serva da sapiência. A ciência é fogo que aumenta o poder dos homens sobre o mundo. A sapiência usa o fogo da ciência para transformar o mundo em comida, objeto de deleite. Sábio é aquele que degusta. Mas se o cozinheiro só conhecer os saberes que moram na caixa de ferramentas é possível que o excesso de fogo queime a comida e, eventualmente, o próprio cozinheiro...

http://www.rubemalves.com.br/sobrecienciaesapiencia.htm

terça-feira, 26 de julho de 2011

Todas as crianças são bem-vindas à escola: Desafios



Partindo da premissa de que toda criança precisa da escola para aprender, a trajetória escolar deve garantir que toda criança, mesmo a que tem déficits temporários ou permanentes e em função dos quais apresenta dificuldade para aprender, de fato, aprenda!

Ainda que sejam enfrentados desafios como: ensino de baixa qualidade, terminalidade específica e subsistema de ensino especial, a necessidade de priorizar a qualidade do ensino regular deve ser assumida pelos educadores. Além disso, a educação básica é, sem dúvida alguma, um dos fatores do desenvolvimento econômico e social de qualquer país. Assim, embora seja uma tarefa possível de ser realizada, alcançar a qualidade do ensino regular nunca será possível enquanto os modelos tradicionais de organização do sistema escolar perdurarem.

Já podemos contar com uma Lei Educacional que propõe e viabiliza novas alternativas para melhoria do ensino nas escolas. Porém, estas ainda estão longe, na maioria dos casos, de se tornarem inclusivas, isto é, abertas a todos os alunos, indistinta e incondicionalmente. O que existe em geral são projetos de inclusão parcial, que não estão associados a mudanças de base nas escolas e que continuam a atender aos alunos com deficiência em espaços escolares semi ou totalmente segregados (classes especiais, salas de recurso, turmas de aceleração, escolas especiais, os serviços de itinerância).

Com isso, fica clara a necessidade de se redefinir e de se colocar em prática novas práticas pedagógicas, o que implica na atualização e desenvolvimento de conceitos teóricos e práticos condizentes com a demanda de alunos que a escola abarca.

Muda a escola e com isso, todas as crianças são nela bem-vindas!

Ref. Maria Teresa Eglér Mantoan (Pró-Inclusão)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Se a história for sempre assim...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Amigo

Sinto uma tristeza ou dor
Minh'alma grita por amor
Uma saudade invade e traz em meu coração
Amigos que se foram pra outra direção...

Eu sinto falta do olhar
Seu ombro perto a me escutar
Sua mão bem forte a me acolher
O amor me faz crescer
É parte que de mim jamais se explica...
Um choro, a voz, uma canção
Um riso, a festa, um violão...
Lembranças que hoje trago em mim
Luz viva em minha história

Voz de Deus gravada na memória

Amigo, te quero perto...
Quero andar sempre ao teu lado
Com meu coração aberto!
Amigo, na estrada tão longe e na alma tão perto...
Deus te põe em minha vida
E o que ele faz é sempre certo!


Te entrego, nas mãos de outro amigo
Que sempre comigo está a falar...
Te entrego ao toque de Deus
Pois ele é quem sabe pra onde vai nos levar!

Autora: Ziza Fernandes

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A disputa Rio X São Paulo e as vaidades acadêmicas



Lamento informar que as cenas anunciadas abaixo fazem parte de um cotidiano bizarro e desinteressante.
Universidade Federal do Rio de Janeiro, segunda-feira 11 de julho, 19 horas e 30 minutos. Um grupo de estudantes de pós-graduação adentra a sala de apresentações de painéis, a qual será coordenada por um professor especialista no Eixo "Pesquisa em Educação e Formação de Professores". Em um total de 7 trabalhos, com as respectivas temáticas de pesquisa: profissionalização docente, formação de professores da educação básica ciclo I, alfabetização e letramento e formação de professores, formação de professores para o uso de recursos educacionais digitais (desta que vos escreve),  formação de professores do ensino profissional e formação de professores de educação ambiental, o "professor doutor" anuncia a disponibilidade de tempo de apresentação de 10 minutos para cada expositor e 50 minutos para debate sobre os mesmos.
Poderia ser assim, não fossem as vaidades...
Após as apresentações, breves e desconcertantes, três chamados "professores doutores" resolvem problematizar o ensino de 9 anos, presente no pano de fundo em dois ou três trabalhos expostos. Resolvem criticar, sem o menor pudor, o processo de implantação dessa política no Estado de São Paulo e, não obstante, endeuzar o mesmo processo de implantação no Estado do Rio de Janeiro. Pasmem, são 50 minutos de debate sobre o "por que" no Rio de Janeiro tem dado certo e em São Paulo não. E quem disse que não? Com base em que pesquisas poderiam chegar a essa conclusão?
Mas o motivo de espanto não é o referido debate. Não fosse o momento em que foi lançado, seria até interessante, mas a completa desvalorização dos trabalhos expostos tornou o cenário, no mínimo, desmotivador. Alunos de pós-graduação de diversos Estados do país inteiro dispostos a problematizar suas pesquisas, receber sugestões, aprimorar seus procedimentos metodológicos... E tudo o que importava era descobrir quem é melhor, Rio, ou São Paulo...
E ainda me perguntam porque os professores constituem uma classe tão desunida e competitiva!
BIZARRO
Apesar de tudo, estava no Rio de Janeiro e fui salva pelo Corcovado, Pão de Açúcar, Copacabana, Ipanema...

Isso é tão bom!!!!!



It's so good, the way you do the do...

terça-feira, 5 de julho de 2011

A ciência pós-moderna e o senso comum



Tentando compreender o paradigma da ciência pós-moderna, aliado à própria filosofia da ciência, penso serem as linhas abaixo grandes norteadoras do que se espera da ciência atual e futura. E não poderia jamais construir esse pensamento sem a leitura do texto de Boaventura de Sousa Santos...

A ciência moderna nos ensina sobre as nossas formas de ser e estar no mundo, além de produzir conhecimentos e desconhecimentos.
O que nos faz compreender que o cientista nada mais é do que um ignorante especializado, e o cidadão comum, um ignorante generalizado.
Ao contrário, a perspectiva da ciência pós-moderna considera que nenhuma forma de conhecimento é racional em si mesma. E com isso tenta dialogar com outras formas de conhecimento, deixando-se penetrar por elas.
Essa ideia traz o conhecimento do senso comum, aquele prático, construído no cotidiano, nas experiências e nas ações, como aquele que dá sentido às nossas vidas.
A ciência pós-moderna portanto, considera o conhecimento do senso comum, reconhecendo neste algumas virtualidades para enriquecer a nossa relação com o mundo. Ainda que o conhecimento do senso comum tenda a ser um conhecimento mistificado e mistificador, tem uma dimensão utópica e libertadora que pode ser ampliada através do diálogo com o conhecimento científico.
O senso comum faz coincidir causa e intenção; faz aflorar uma visão do mundo pautada na ação e no princípio da criatividade e da responsabilidade individuais. O senso comum é prático e pragmático; reproduz-se a partir das trajetórias e experiências de vida de um dado grupo social. O senso comum é transparente e evidente. O senso comum é indisciplinar e imetódico; não resulta de uma prática especificamente orientada para o produzir; reproduz-se espontaneamente no suceder quotidiano da vida. O senso comum aceita o que existe tal como existe; privilegia a ação que não produza rupturas significativas no real. Com essas características, o conhecimento do senso comum têm uma virtude antecipatória.
Na ciência pós-moderna o conhecimento científico só se realiza na medida em que se converte em senso comum. Só assim torna-se uma ciência transparente que não despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que se deve traduzirem auto-conhecimento, e em sabedoria de vida.
É esta que assinala os marcos da prudência à nossa aventura científica
Duvidamos suficientemente do passado para imaginarmos o futuro, mas vivemos demasiadamente o presente para podermos realizar nele o futuro. Sabemo-nos a caminho mas não exatamente onde estamos na jornada!

REFERENCIA

SANTOS, Boaventura de Sousa. Um Discurso sobre as Ciências, 11. ed.. Porto: Afrontamento, 1999.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

As vezes...

... as primeiras cicatrizes não desaparecem de vez. E sempre que algo parecido acontece, consegue abrir uma ferida exatamente no mesmo lugar....
E com isso, às vezes, não existe outra escolha a não ser partir para longe ou, ficar longe.
Quantas vezes isso foi necessário? E quantas vezes melhor vai ser, fazer a mesma coisa?
Às vezes, ou na maioria das vezes, a gente não aprende com nossos erros, e principalmente, com os erros dos outros...
Daí às vezes, as lágrimas dizem tudo o que há para dizer.
Talvez às vezes, no final das contas, é certo que o que não mata o coração o deixa mais forte.